sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Crônica: Passado e presente




Toda quinta-feira é assim, é dia de voltar ao passado.

Pareço carro movido a álcool para sair da cama, no tempo em que meu avô para me levar à escola pela manhã, precisava deixar o carro ligado na garagem para esquentar, antes mesmo de ir à padaria comprar aquela deliciosa bisnaga que tinha acabado de sair do forno, que fazia suar o papel com que era embrulhada, e que ao se juntar na nossa casa ao aroma e ao sabor do café recém passado no coador de pano pela minha avó, formava o casamento perfeito, que hoje torna a minha memória numa lembrança perfumada daquelas manhãs. 

Perfume e emoção mantêm uma relação muito íntima. Um perfume é guardado na memória acompanhado da emoção, do sentimento que experimentamos naquele momento, e quando acessamos essa memória afetiva e revivemos aquela emoção, provamos do mesmo perfume. Por isso, há quem diga que é quase impossível dissociar perfume de afeto.

E na companhia desta lembrança, me vejo descendo as escadas do prédio onde morávamos no Rio de Janeiro usando meu uniforme da escola - uma saia azul plissada, blusa branca de gola e botões, meias brancas, e o par de sapatos preto modelo boneca que eu tanto amava (sempre muito bem engraxados) -, carregando minha mochila e minha lancheira, que para mim, mais parecia um troféu a ser exibido.

E no momento em que saímos para escola, nem parecia que aquele carro tinha “sofrido” para ficar pronto para percorrer, mais uma vez, o mesmo trajeto.

Sou assim nas madrugadas de quinta, igualzinha aquele carro movido a álcool do meu avô... tenho que esquentar primeiro. Sair da cama às quatro da manhã para trabalhar - se for às madrugadas chuvosas, pior ainda - é um verdadeiro suplício. Saio me arrastando repetidas vezes para fazer o mesmo caminho, mas depois que esquento ninguém me segura. Assim como o carro, que mais parecia sorrir por enfim estar fazendo o que gosta – roncar seu motor -, faço meu trabalho.

Passado e presente estão sempre ali, juntos e misturados. Não sou saudosista, mas resgatar da memória a nossa história é abraçar a nossa essência, é não se deixar esvair de nós mesmos, é saborear o mesmo perfume.

Crescemos, mudamos várias vezes no decorrer das décadas, passamos a aceitar o que antes rejeitávamos, não temos mais tantas certezas assim, entendemos que não há garantias, repetimos o conselho dos nossos pais, imitamos o passado.



Médica e autora do livro: Perfume de Hotel
contato@carlasgpacheco.com

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