sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Crônica: Eu tenho uma casinha assim


É engraçado, mas tem uma casinha na colina pra gente.

Eu também trabalho no interior e percorro léguas até chegar ao meu destino, o que confesso, quebra totalmente a minha rotina e, por mais que o tempo passe, cada dia é sempre como se fosse à primeira vez. 

Sou totalmente urbana e a paisagem até chegar a meu destino é algo um tanto assim... esmagadora da minha visão de megalópole. 

Grandes vias, túneis, viadutos, arranha-céus, arquitetura moderna mesclada à história, barulho de cidade, perfumes das mais variadas essências, gente despojada e elegante que se combinam perfeitamente pelas ruas, é desse jeito que me sinto em casa.

Quando estou na estrada a caminho do lugar onde o vento faz a curva, achando quase impossível que vá mesmo chegar, sou fisgada por aquela casinha ao longe, no meio do mato (e do nada), lá no alto de uma colina e que me faz pensar em como aquelas pessoas chegaram e se mantêm ali e, invariavelmente, lamento o quanto ainda estão distantes do meu mundo moderno, tecnológico e globalizado. 

Mas infelizmente, em minhas viagens, eu me descubro reclusa aquela mesma casinha. Há tanta coisa lá fora, há tanto mais a meu dispor e eu aqui aquém de tudo isso...

Um choque! Foi o que levei ao ver crianças tão pequenas sentadinhas no chão, de perninhas cruzadas, ouvindo atentamente o que a professora dizia indo muito além de simples alusões, mas deixando transparecer com clareza aos olhares mais curiosos todo o conteúdo que podia ser vivenciado naquele rico universo dentro do Museu de História Natural de Nova York. Quando meus filhos tiveram essa chance?

Enfim, em tempo de eleições em um país completamente desmemoriado, farto de revoltas fugazes, tão cheio de bolsas, com pouca credulidade em seus representantes, que também por culpa de seu povo se perpetuam nesse cenário político caótico fazendo apenas o que chamaria aqui da “falsa dança das cadeiras” (sai o pai e assume o filho), tenho a sensação de que por muito tempo ainda serei moradora daquela casinha na colina.

Não! Recuso-me a aceitar! 

Eu quero mais, porque simplesmente existe muito mais. Conheci, provei, gostei, e agora... agora quero descer a colina e cruzar a estrada.

Escolhas, a vida é feita de escolhas e eu escolho a civilização.



Médica e autora do livro: Perfume de Hotel
contato@carlasgpacheco.com

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