sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Crônica: No fundo, tudo se resume em caixas



Mulheres são complexas, homens são compartimentados.

Apesar de ambas as definições começarem com a letra “c”, elas diferem, e muito, na sua forma de ser.

Diz-se que nós somos complicadas de entender e que, do contrário, cabeça de homem é muito simples. Mas tanta praticidade às vezes atrapalha.

Temos interesses em comum, mas visões bem diferentes da vida, da forma de lidar com situações cotidianas e com temas como amor e sexo.

Mas apesar das diferenças, os clichês de gênero estão cada vez mais fora de moda. Aliás, clichês e tabus estão aí para serem quebrados.

Não precisamos de homem para abrir a tampa do vidro de azeitona, trocar a resistência do chuveiro, consertar uma tomada, matar uma barata. Claro que é bom termos para quem gritar nossas, digamos, inabilidades adquiridas e nossos medos tolos, mas não é isso que buscamos quando falamos em ter um homem ao nosso lado. O lugar que esse homem vai ocupar é outro. Queremos um homem que se disponha a amar de verdade, que curta a nossa companhia e goste de se divertir junto, e que respeite e valorize a nossa independência. 

Do mesmo modo, um homem não precisa de uma mulher para lavar suas roupas, preparar suas refeições, leva-lo ao médico, isso caberia bem ao papel de mãe e, se é isso que ele está pedindo, caia fora porque é roubada. Esse homem, na verdade, ainda é um menino.

Cabeça de homem é feita de várias caixas, está tudo separado por assuntos e eles demoram um tempinho para fechar uma caixa e abrir a outra. Do contrário, cabeça de mulher é feita de uma caixa só, multifuncional, por isso, conseguimos pensar e fazer muitas coisas ao mesmo tempo e, aí está a grande diferença e a dita complexidade.

Além disso, na cabeça de homem, essas “caixas” não são iguais no tamanho. Acho que seja uma unanimidade entre os homens que duas dessas caixas se destacam e ocupam quase todo o espaço, mas mesmo entre elas os tamanhos também são diferentes. Uma grande e a outra é imensa. Estou falando das caixas do sexo e do nada, nessa ordem. E ouvi um homem dizer que “o sonho de todo homem, antes de ir para caixa do nada, é dar uma passadinha rapidinha na caixa do sexo”.

Confesso, e arrisco dizer que a mulherada vai concordar comigo, que é muito difícil entender essa caixa do nada que os teletransporta para um mundo onde todos são surdos. Em se tratando de cabeça de mulher, onde tudo está junto e misturado, o vazio é quase uma impossibilidade. Mas no quesito sexo, nós assumimos que também temos vontade, passamos a tomar a iniciativa, aprendemos a jogar, quebramos os rótulos e conquistamos o direito de termos orgasmos múltiplos e barulhentos. 

A praticidade masculina costuma entrar em choque com frequência com a emoção feminina. É uma combinação complicada, uma receita que é fácil de desandar se esses dois elementos tão fortes não acharem um equilíbrio entre si.

Mas em tempos modernos, machos engravatados e mulheres submissas e dependentes, estão virando cada vez mais figurinhas caricatas. 

Estamos evoluindo e aprendendo a falar línguas que não são as nossas. Tudo é uma questão de vencermos nossas impotências de vontades e não de capacidade. Não somos superiores ou inferiores, somos feitos da mesma matéria, portanto, somos aquilo que acreditamos e queremos ser. 

Muitas vezes, o que verdadeiramente nos impede de ser feliz, é a nossa indisponibilidade para o novo. Ninguém nasce sabendo nada e, por mais que tenhamos um inegável talento nato para algo, teremos sempre a aprender e praticar.



Médica e autora do livro: Perfume de Hotel
contato@carlasgpacheco.com

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